domingo, 23 de dezembro de 2018

Amigo da onça

Festas de fim de ano me deixam melancólico. Acontecimentos grandiosos, simbólicos, maciçamente compartilhados e que geralmente marcam alguma época do ano ou que significam o avanço do tempo têm essa capacidade de me deixar introspectivo e mais emotivo. Por essa razão não costumo entrar no clima do Natal e só nos últimos momentos é que encaro a virada do ano. Desfiles de escolas de samba também me afetam dessa maneira. As fantasias, os carros alegóricos, a música, essas coisas me conduzem ritmicamente à nostalgia. No caso do Natal, além desses fatores simbólicos e religiosos, pesa ainda o fator social. Relaciono as festas de Natal com reuniões familiares. Sempre fui introspectivo e somando-se a isso o fato de eu ser gay, eu costumava ser a pessoa que ficava boa parte do tempo escondida no quarto.

Eu me via como um esquisito e não queria me expor nem mesmo para membros da família. Sair dessa posição foi um passo em direção a um tipo de existir mais coerente com quem de fato eu desejava ser. E quando digo sair dessa posição estou me referindo tanto a deixar de pensar em mim como sendo um cara deslocado e inseguro, quanto a sair dos meus espaços privados para conversar com as pessoas. Não que eu tenha encontrado meu lugar na família. Procuro ir na contramão disso, na desconstrução dos lugares estabelecidos.

Por isso fiquei um pouco apreensivo ao participar de um Amigo da Onça, organizado por minha irmã Cláudia para reunir a família, nos dizeres dela. Essa brincadeira é parecida com o Amigo Secreto, com a diferença de que o sorteio é realizado na hora. Todos os presentes são colocados juntos em algum lugar e a pessoa sorteada escolhe um dos pacotes, desembrulha e decide se quer ficar com aquele ou substituir pelo presente de alguém que tenha sido sorteado anteriormente. Há algumas regras: a primeira pessoa sorteada pode, no final, tomar qualquer presente, exceto o próprio e aquele que lhe foi tomado. E não podemos ficar com o presente que compramos.

A primeira sorteada foi minha sobrinha Luanna. Ela escolheu o pacote com o presente levado por minha mãe, um conjunto de tigelas de vidro. Na minha vez, escolhi o pacote com o presente comprado por meu sobrinho Luiz Antônio, um copo térmico grande e que me serviria bastante para levar chá e suco para a universidade. Eu estava de olho no presente que minha sobrinha Hevelliny levou e que havia ido parar com alguém, um cofre de pinguim que ficaria maravilhoso no meu quarto, que parece um quarto de criança, mas fui muito pouco estratégico e resolvi arriscar ficar com o copo térmico, sem pensar que a probabilidade de alguém toma-lo de mim era grande. E foi o que aconteceu. A Karina, noiva do Luiz, pegou o presente comprado pela minha sobrinha Hallana, uma caneta e um chaveiro vermelhos dentro de uma caixinha muito bonita, e decidiu substituir pelo copo térmico. Tudo bem, achei que a caneta e o chaveiro têm muito a ver comigo e me lembrarei de Hallana sempre que olhar algum dos dois. Hallana escolheu o presente comprado pela Cláudia, um caderno prateado muito brilhante.

Outros presentes foram um recipiente com copo para tomar destilados comprado por meu pai, que foi bastante disputado. Fones de ouvido comprados por mim, que passaram de minha sobrinha Edna para Luanna, mais fones de ouvido, pannettone da Cacau Show, uma garrafa térmica, relógio despertador e uma caneca com os dizeres “Amigo da onça”, comprada pela minha irmã Erica e que ficou com minha mãe. Ninguém ousou tomar a caneca dela. Foi uma brincadeira divertida e cheia de tensão, mas no fim de tudo acho que todo mundo gostou de seus presentes. Tive bastante trabalho para comprar algo de meu agrado. A cidade onde moro é muito pequena e acho que visitei mais da metade das lojas até chegar aos fones de ouvido. Comprei-os pensando em meu sobrinho José Antonio, que vive pegando meus headphones emprestados, mas ele acabou não participando. Outra que deu no pé foi minha sobrinha Marielly... Mas eu fiquei, firme e forte, comendo torta, tomando sorvete e vendo meu sobrinho-neto Cauã dançar Meu pintinho amarelinho de um jeito muito fofo.

© Jefferson Adriã Reis
Maira Gall