quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O caminho jamais percorrido

O tempo não é linear. Kronos, afinal de contas, não tem tanto poder sobre nós, mortais, finitos, passageiros. Quando o passado insiste em voltar, incompreensível e desconfortável, há tão mais por trás disso do que a nostalgia. Quando as lembranças se revolvem umas sobre as outras como larvas, velhos traumas, e quando a inocência da juventude recordada deixa na boca um gosto de saudade... Ultimamente tenho me confrontado, não somente sobre o modo como tenho agido agora, mas também sobre as coisas que costumavam acontecer no passado. Acho que é uma nova forma de lidar com minha mania de melancolia. É um modo de juntar todos esses pedaços e encarar de uma forma menos agressiva. Sei que tudo isso está muito confuso agora, mas é muito mais simples do que parece.

É madrugada e ouço Enjoy the silence, de Depeche Mode, e tudo isso me parece tão familiar. O quarto fechado, a escuridão, a luz do monitor em minha face, hoje mais marcada. Essa fome, que se confunde com a noite lá fora. Coisas que nunca me deixaram, apesar do sentimento de perda. O jovem cheio de sonhos que não deu certo. O adolescente gay, esquisito, cheirando à gordura de lanchonete. O caipira ingênuo que descobriu a Literatura. Ao recordar a adolescência e o início da juventude, tenho a sensação de que alguma coisa ficou sem um devido final, como se eu ainda trouxesse um pedaço de um clímax disforme alojado entre o pulmão e o coração. E por que isso não seria verdade? Por que preciso decretar um final para o rapaz solitário e fantasioso? Por que devo sentir medo de quem fui e do que sentia? Do próprio medo?

Dia desses encontrei alguns textos de quando eu costumava blogar e alguns deles, muitos, na verdade, nem mesmo parecem ter sido escritos por mim. Mas me reconheci em cada palavra. Por algum tempo quis esquecer as coisas que eu sentia, ou que não sentia. Isso mudou, em parte, desde esse episódio em que reli os escritos. Imagino inclusive que é um processo que teve início até mesmo antes desse dia, quando abri meus baús e me li em voz alta para outra pessoa. Sim, havia outro alguém que ouviu minhas palavras e não me condenou... tanto. Eu costumava ser muito duro comigo e com os outros, mas acho que ainda não tenho tanto a dizer para o jovem Jefferson. Ou talvez tenha. E é por isso que repostarei alguns desses textos de anos atrás aqui nesse blog, um novo blog. E é possível que eu comente uma ou outra passagem.
© Jefferson Reis
Maira Gall