sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Azul

Fazia coisas bobas, mas que achava tão cheias de significado, como andar no meio fio tentando não cair e anotar os trechos preferidos dos livros que lia em um caderno. Acreditava ser apenas mais um cara perdido na vida, desses que andam por aí chutando pedrinhas, escrevendo palavrões nos vidros empoeirados dos carros. E tudo era tão cheio de poeira: os bares, as rodovias, as árvores, o céu.

Gostava da noite, principalmente as frias, com céu estrelado. Gostava do que era frio e de ser sempre o mais gelado quando se encostava em outro corpo humano. Às vezes ousava escutar uma ou outra música sobre o amor e imaginar a vida como um videoclipe, mas logo se tornava fugitivo, agressivo, como se a canção o estivesse ameaçando de todas as formas. Então voltava para o punk.

Tinha um mundo próprio, apenas dele, feito de texturas, formas, aromas, cores, sons. Ali se trancava. Buscava a solidão como um viciado busca a droga. Sabia rir sozinho, sorrir para o horizonte, chorar sem que ninguém soubesse. E sabia também ser alegre do jeito dele, sem interferências, pessoas para dizer o que era bom, o que devia fazer para ser feliz, que a esperança era a última que morria. Ele achava que não. Esperança era apenas mais uma palavra bonita e que a morte, essa nem existia.

Quando chovia, ficava junto à janela, sentindo a chuva e olhando os pingos nas poças de água que se formavam pelo quintal. O pingo batia na água que espirrava para cima, depois se formavam aqueles círculos de onda que ficavam cada vez maiores e mais fracos, até desaparecerem. Tudo isso muito rápido, fração de segundos. Lembrava-se de quando era criança e a mãe lhe dizia que se tratavam de cavalinhos de água. Tão nostálgico, sentia saudades até do que não vivera, do que nunca pertencera a sua vida.
Lembrou-se de que havia lido em algum lugar que no Romantismo a primavera é relacionada à infância. A dele não, nada de primavera e muito de verão e inverno.  Verão pelas chuvas compridas e grossas, água por todos os lugares, calor e água no fim da tarde. Inverno pelas brincadeiras solitárias. Você sente frio e você mesmo se esquenta. Saía cheio de agasalhos para brincar no quintal. Com um pedaço de galho desenhava no chão. Eram peixes, estrelas, casinhas, mulheres gordas. Infância imperfeita, torta, brinquedo quebrado, e ele amava. Amava a umidade da vida. Criança com cheiro de azul, textura de nuvem.

Depois da infância, a tempestade, as confusões se tornando certezas, como raios por todos os lados. O caminho enlameado de antes, agora apenas quadro abstrato na parede. Passava horas mergulhado na voz da roqueira baiana. O irmão perguntava às vezes se estava tudo bem, a mãe dizia que deveria sair mais de casa, o pai, ah o pai, esse não dizia nada, não valia a pena dizer.

Cresceu aparentemente morto, quase nunca falava. E os outros não percebiam que ele não queria o convencional, que o tradicional lhe fazia mal. Ainda buscava na casa um abrigo especial. Andava pelos cômodos como a procurar passagens secretas. Às vezes as encontrava dentro da própria mente, doente, transcendente, fantasiosa.

Escrevia coisas em cadernos velhos que logo ficavam esquecidos. O violão que ganhara na infância pendurado na parede do quarto, quase intocado, exceto quando se sentia leve e azul, como blues e poesia, então pegava o instrumento e arriscava algumas notas. As cordas de aço machucando as pontas dos dedos, cobrando um sacrifício para falar notas musicais. E o garoto, isolado, seguia cantando as palavras de homens e mulheres que escreviam palavras tristes e bonitas para que vozes nem sempre bonitas pudessem dar vida ao que parecia morto. E a música era literatura cantada, onde o garoto se sustentava, pobre, feio, intenso, tão dependente de si mesmo, tão amarrado no que ele chamava de alma. Tão jovem e tão só. E isso era uma espécie de “coisa boa”, pois podia ficar sozinho absorvendo todos os sons e se tornando ainda mais frio e duro. Apático e forte.

Gostava de se imaginar andando pelo deserto em uma noite de cristal em pó, ou de remar sozinho um pequeno bote em uma lagoa imensa, negra e bela. E seguia vivendo nos sonhos. Tornou-se homem sonhador, sonho, dor, amor, ironia. Mas tornou-se homem. Um homem no fim da tarde, onde o tempo já não é mais dia, muito menos noite, e sim uma transição, uma ilusão, uma brincadeira de Deus. E era tão feliz por poder caminhar vendo o sol se pôr e as estrelas surgindo aos poucos. O vento fresco fustigando o rosto e ele sorrindo para o nada, apenas ouvindo a música de dentro de sua cabeça, vivendo a literatura que ficava escrita em seus passos. Sentindo intensamente a beleza profana e trágica que existia lá no fundo, bem lá no fundo de seu próprio eu. Um Eu-azul, Eu-sacrifício, Eu-existência.


Como dito anteriormente, estou resgatando alguns textos que estavam guardados na gaveta. Azul foi inspirado por meu aniversário e postado em meu antigo blog, Garoto Mal Intencionado, em 06 de março de 2011, um dia antes de eu completar 20 anos.

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© Jefferson Reis
Maira Gall