sábado, 17 de novembro de 2018

A época da inocência

Em algum momento você se sentiu na obrigação de escolher entre algo moralmente correto e seu verdadeiro desejo? Penso que todos nós, humanos vivendo em sociedade, alguma vez nos questionamos sobre a obediência aos valores morais, às convenções sociais, à etiqueta e a algumas coisas muito pertinentes como a honra e a reputação. Em minha adolescência eu costumava dizer que não me importava com o que as pessoas falavam a meu respeito. Estava tentando enganar a mim mesmo e amenizar o sofrimento causado pela pressão para me enquadrar em um modelo admirado socialmente.

O longa A época da inocência (The age of innocence, Martin Scorsese, 1993), adaptação do romance homônimo de Edith Wharton, nos apresenta a condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), recém-chegada à Nova Iorque e principal assunto das fofocas da alta sociedade. Que vergonha uma mulher abandonar o marido na Europa e vir sozinha para a América. Dizem que viveu com o secretário do marido por um ano antes de voltar a Nova Iorque. Como se atreve a vir ao teatro mesmo depois de tudo isso? Entre sorrisos falsos, deboche e desaprovação Ellen é recebida e ao mesmo tempo excluída do convício social. Ela é uma mulher estigmatizada por ter tido um “mau casamento” e recaem sobre ela suspeitas de infidelidade e descaso pelos bons costumes.

Em contraste, sua prima, May Welland (Winona Ryder), é uma moça comportada e respeitável, e todos vislumbram para ela um futuro tão belo e singelo quanto seu bonito rosto e a graciosidade de sua calmaria. May está comprometida com Newland Archer (Daniel Day-Lewis), um advogado de uma família abastada e tradicionalista, que acaba por se aproximar de Ellen, principalmente ao ficar responsável pelo processo de divórcio que ela abre contra o marido conde. Newland é um homem dividido entre manter suas próprias opiniões – como a de que as mulheres devem ter as mesmas liberdades que os homens – e sustentar os valores da família, cuja maior preocupação em relação ao seu casamento com May é a de que a péssima reputação da prima, Ellen, possa atingir a família Archer de alguma forma.

É neste ambiente de respeito às regras e à tradição que as vidas de Ellen, Newland e May irão se cruzar e muitas coisas entrarão em jogo. Paixão, amor, dinheiro e prestígio como combustível para conflitos e investidas tão sutis quanto a época determinava. Há muitas cenas bonitas no filme, dessas que raramente vemos hoje em dia nas salas de cinema. A trama é um disparador para olharmos ao nosso redor e para nós mesmos e identificarmos as amarras sociais, os processos pelos quais os sujeitos ingressam ou são excluídos de grupos e o peso das escolhas em nossas vidas, quando, independente do caminho que escolhermos, sentiremos as consequências. Hoje ou daqui a vinte anos. 


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© Jefferson Reis
Maira Gall