terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Linguagem

– Sabe, amor, até mesmo as vírgulas que você usa para intensificar seus vocativos o tornam mais arrogante. Pronuncia tão bem o nome das pessoas, isolando-as perfeitamente neste seu esquema aracnídeo. Sempre aquela pausa antes do sorriso, quando seu olhar se torna tão intenso a ponto de eu me sentir pelo avesso, analisado de dentro para fora. 

Ele se alonga na cama, em minha direção. Usa apenas cueca e tem os cabelos bagunçados. Sorri e diz:

– E você sempre tão exagerado. Seu problema é se importar com isso, quando sabe que minha brincadeira favorita é a linguagem. As palavras são como botões, que acionadas desempenham funções. No entanto, na maioria das vezes, atuam como extensão de sentimentos. Existe algo de loucura no domínio da linguagem.

Chega-se a mim e continua:

– Sabe qual é a melhor parte de sua fala?

Balanço a cabeça devagar, negativamente, enquanto ele se aproxima de meu rosto. 

– Quando a calo com minha boca, sem nada dizer.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Amigo literário


Ontem aconteceu a revelação de um Amigo Literário do qual participei. Esta brincadeira é parecida com o Amigo Oculto, com a diferença de que o presente deve ser um livro. Os organizadores foram o Alisson e a Vanessa, idealizadores do Bookaholic, um grupo de leitores. A festinha ocorreu na Center Livros, a livraria da cidade, onde trabalhei de janeiro de 2014 a dezembro de 2016.

Como era minha primeira vez, eu estava um pouco nervoso. Meu amigo literário foi um rapaz que agora trabalha na Center Livros e que, por este motivo, acabou descobrindo antes da hora tanto que eu o havia sorteado quanto o livro que comprei para ele, o cyberpunk Neuromancer, de William Gibson. Tudo isso porque os papeizinhos com nossos nomes e as listas com sugestões de livros estavam na livraria e, como é a única da cidade, precisei comprar o livro lá, bem no horário em que ele estava trabalhando. Tentei disfarçar, mas o outro rapaz que me atendeu não conseguiu ser muito discreto.

Ganhei os livros Um milhão de finais felizes, de Victor Martins, e Como funciona a ficção, de James Woods. Sim, ganhei dois livros de uma moça que eu costumava atender quando trabalhava na livraria. Quando ela foi me anunciar, disse que seu amigo literário a havia aturado muito e durante bastante tempo. No mesmo momento percebi que estava falando sobre mim, porque ela foi uma de minhas clientes fiéis, daquelas que chegavam na loja anunciando que só seriam atendidas por mim.

Um milhão de finais felizes é um romance com protagonista gay, do mesmo autor de Quinze dias, outro título que está em minha lista. Como funciona a ficção é um livro sobre a arte de escrever, publicado pela editora SESI–SP. James Wood, o autor, é um crítico literário que, neste trabalho, aborda questões como o narrador, o personagem, as metáforas, entre outras coisas muito interessantes. Amo livros sobre leitura e escrita. Tenho alguns que são de fato muito bons, como o excelente Para ler como um escritor, de Francine Prose.

Não preciso dizer que fiquei muito feliz com os presentes. Também me diverti bastante na hora da revelação, porque eu não conhecia a maioria das pessoas que estavam ali. E elas também não se conheciam pessoalmente, então quase todo mundo começou o discurso dizendo algo como “Eu não conheço a pessoa que eu tirei, mas...”. Quem me salvou de ficar completamente perdido foi o Leonardo, um rapaz que conheci quando aceitei participar da brincadeira e que me chamou para conversar sobre livros minutos depois de eu ter me apresentado no grupo de Whatsapp feito para a interação dos participantes. Ah, e descobri que o André Aciman, autor de Me chame pelo seu nome lançou um novo romance, o Variações Enigma... Quero muito!

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Azul

Fazia coisas bobas, mas que achava tão cheias de significado, como andar no meio fio tentando não cair e anotar os trechos preferidos dos livros que lia em um caderno. Acreditava ser apenas mais um cara perdido na vida, desses que andam por aí chutando pedrinhas, escrevendo palavrões nos vidros empoeirados dos carros. E tudo era tão cheio de poeira: os bares, as rodovias, as árvores, o céu.

Gostava da noite, principalmente as frias, com céu estrelado. Gostava do que era frio e de ser sempre o mais gelado quando se encostava em outro corpo humano. Às vezes ousava escutar uma ou outra música sobre o amor e imaginar a vida como um videoclipe, mas logo se tornava fugitivo, agressivo, como se a canção o estivesse ameaçando de todas as formas. Então voltava para o punk.

Tinha um mundo próprio, apenas dele, feito de texturas, formas, aromas, cores, sons. Ali se trancava. Buscava a solidão como um viciado busca a droga. Sabia rir sozinho, sorrir para o horizonte, chorar sem que ninguém soubesse. E sabia também ser alegre do jeito dele, sem interferências, pessoas para dizer o que era bom, o que devia fazer para ser feliz, que a esperança era a última que morria. Ele achava que não. Esperança era apenas mais uma palavra bonita e que a morte, essa nem existia.

Quando chovia, ficava junto à janela, sentindo a chuva e olhando os pingos nas poças de água que se formavam pelo quintal. O pingo batia na água que espirrava para cima, depois se formavam aqueles círculos de onda que ficavam cada vez maiores e mais fracos, até desaparecerem. Tudo isso muito rápido, fração de segundos. Lembrava-se de quando era criança e a mãe lhe dizia que se tratavam de cavalinhos de água. Tão nostálgico, sentia saudades até do que não vivera, do que nunca pertencera a sua vida.
Lembrou-se de que havia lido em algum lugar que no Romantismo a primavera é relacionada à infância. A dele não, nada de primavera e muito de verão e inverno.  Verão pelas chuvas compridas e grossas, água por todos os lugares, calor e água no fim da tarde. Inverno pelas brincadeiras solitárias. Você sente frio e você mesmo se esquenta. Saía cheio de agasalhos para brincar no quintal. Com um pedaço de galho desenhava no chão. Eram peixes, estrelas, casinhas, mulheres gordas. Infância imperfeita, torta, brinquedo quebrado, e ele amava. Amava a umidade da vida. Criança com cheiro de azul, textura de nuvem.

Depois da infância, a tempestade, as confusões se tornando certezas, como raios por todos os lados. O caminho enlameado de antes, agora apenas quadro abstrato na parede. Passava horas mergulhado na voz da roqueira baiana. O irmão perguntava às vezes se estava tudo bem, a mãe dizia que deveria sair mais de casa, o pai, ah o pai, esse não dizia nada, não valia a pena dizer.

Cresceu aparentemente morto, quase nunca falava. E os outros não percebiam que ele não queria o convencional, que o tradicional lhe fazia mal. Ainda buscava na casa um abrigo especial. Andava pelos cômodos como a procurar passagens secretas. Às vezes as encontrava dentro da própria mente, doente, transcendente, fantasiosa.

Escrevia coisas em cadernos velhos que logo ficavam esquecidos. O violão que ganhara na infância pendurado na parede do quarto, quase intocado, exceto quando se sentia leve e azul, como blues e poesia, então pegava o instrumento e arriscava algumas notas. As cordas de aço machucando as pontas dos dedos, cobrando um sacrifício para falar notas musicais. E o garoto, isolado, seguia cantando as palavras de homens e mulheres que escreviam palavras tristes e bonitas para que vozes nem sempre bonitas pudessem dar vida ao que parecia morto. E a música era literatura cantada, onde o garoto se sustentava, pobre, feio, intenso, tão dependente de si mesmo, tão amarrado no que ele chamava de alma. Tão jovem e tão só. E isso era uma espécie de “coisa boa”, pois podia ficar sozinho absorvendo todos os sons e se tornando ainda mais frio e duro. Apático e forte.

Gostava de se imaginar andando pelo deserto em uma noite de cristal em pó, ou de remar sozinho um pequeno bote em uma lagoa imensa, negra e bela. E seguia vivendo nos sonhos. Tornou-se homem sonhador, sonho, dor, amor, ironia. Mas tornou-se homem. Um homem no fim da tarde, onde o tempo já não é mais dia, muito menos noite, e sim uma transição, uma ilusão, uma brincadeira de Deus. E era tão feliz por poder caminhar vendo o sol se pôr e as estrelas surgindo aos poucos. O vento fresco fustigando o rosto e ele sorrindo para o nada, apenas ouvindo a música de dentro de sua cabeça, vivendo a literatura que ficava escrita em seus passos. Sentindo intensamente a beleza profana e trágica que existia lá no fundo, bem lá no fundo de seu próprio eu. Um Eu-azul, Eu-sacrifício, Eu-existência.


Como dito anteriormente, estou resgatando alguns textos que estavam guardados na gaveta. Azul foi inspirado por meu aniversário e postado em meu antigo blog, Garoto Mal Intencionado, em 06 de março de 2011, um dia antes de eu completar 20 anos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Meditação guiada para dormir bem

Esta noite dormi bem e acordei apenas algumas vezes para ir ao banheiro, mas dormi e consegui descansar, apesar de agora estar um pouco sonolento. Atribuo parte de meu sucesso em dormir a uma prática que até então eu olhava com certo preconceito, mas que, nas duas últimas noites, tem se mostrado de grande valor: a meditação guiada.

Que delícia! O medicamento para dormir não estava fazendo efeito, mas a meditação guiada aliada ao chá de erva doce ou camomila ou erva cidreira me proporcionou um relaxamento tão bom que foi o suficiente para que eu adormecesse. E olha que a insônia e a ansiedade são minhas velhas conhecidas. Como agora estou estudando as práticas integrativas e complementares do SUS, as chamadas PICS, acho que vou dar um pouco mais de atenção à meditação.

Ultimamente tenho cuidado melhor de mim. Isso quer dizer que tenho frequentado a ESF do meu bairro, que procurei ajuda médica para minha dificuldade de dormir e que tenho aplicado em minha vida as técnicas que aprendi com o curso de extensão Formação Básica em Fitoterapia, Aromaterapia e Alimentação Saudável na Atenção Primária à Saúde.

Isso também quer dizer que estou me organizando melhor para minhas atividades diárias, procrastinando menos e me posicionando mais nos trabalhos em grupo. Aprender a dizer não e a sinalizar suas vontades pode diminuir bastante a carga de sofrimento psíquico que sofremos no dia a dia.

Algo que também tem me ajudado a controlar a ansiedade foi diminuir o número de informações que recebo diariamente pela internet ou por grupos de Whatsapp. Na maioria das vezes essas informações são inúteis e servem apenas para nos “acelerar”. Por causa disso desativei minhas contas em redes sociais como o Instagram e o Facebook. Confesso que não sinto falta.

Hoje fiquei muito estressado e ansioso por ter que apresentar um seminário sobre a Psicologia Individual, de Alfred Adler (depois conto a história completa). Sou uma pessoa muito tímida e tenho problemas para falar em público, mas, apesar de ter somatizado o estresse em uma dor de estômago muito irritante, consegui controlar o nervosismo e acho que fiz uma boa apresentação. Claro que ter dormido bem contribuiu para minha boa performance. Esta noite vou repetir a sessão de meditação depois de tomar meu chazinho. 

sábado, 17 de novembro de 2018

A época da inocência

Em algum momento você se sentiu na obrigação de escolher entre algo moralmente correto e seu verdadeiro desejo? Penso que todos nós, humanos vivendo em sociedade, alguma vez nos questionamos sobre a obediência aos valores morais, às convenções sociais, à etiqueta e a algumas coisas muito pertinentes como a honra e a reputação. Em minha adolescência eu costumava dizer que não me importava com o que as pessoas falavam a meu respeito. Estava tentando enganar a mim mesmo e amenizar o sofrimento causado pela pressão para me enquadrar em um modelo admirado socialmente.

O longa A época da inocência (The age of innocence, Martin Scorsese, 1993), adaptação do romance homônimo de Edith Wharton, nos apresenta a condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), recém-chegada à Nova Iorque e principal assunto das fofocas da alta sociedade. Que vergonha uma mulher abandonar o marido na Europa e vir sozinha para a América. Dizem que viveu com o secretário do marido por um ano antes de voltar a Nova Iorque. Como se atreve a vir ao teatro mesmo depois de tudo isso? Entre sorrisos falsos, deboche e desaprovação Ellen é recebida e ao mesmo tempo excluída do convício social. Ela é uma mulher estigmatizada por ter tido um “mau casamento” e recaem sobre ela suspeitas de infidelidade e descaso pelos bons costumes.

Em contraste, sua prima, May Welland (Winona Ryder), é uma moça comportada e respeitável, e todos vislumbram para ela um futuro tão belo e singelo quanto seu bonito rosto e a graciosidade de sua calmaria. May está comprometida com Newland Archer (Daniel Day-Lewis), um advogado de uma família abastada e tradicionalista, que acaba por se aproximar de Ellen, principalmente ao ficar responsável pelo processo de divórcio que ela abre contra o marido conde. Newland é um homem dividido entre manter suas próprias opiniões – como a de que as mulheres devem ter as mesmas liberdades que os homens – e sustentar os valores da família, cuja maior preocupação em relação ao seu casamento com May é a de que a péssima reputação da prima, Ellen, possa atingir a família Archer de alguma forma.

É neste ambiente de respeito às regras e à tradição que as vidas de Ellen, Newland e May irão se cruzar e muitas coisas entrarão em jogo. Paixão, amor, dinheiro e prestígio como combustível para conflitos e investidas tão sutis quanto a época determinava. Há muitas cenas bonitas no filme, dessas que raramente vemos hoje em dia nas salas de cinema. A trama é um disparador para olharmos ao nosso redor e para nós mesmos e identificarmos as amarras sociais, os processos pelos quais os sujeitos ingressam ou são excluídos de grupos e o peso das escolhas em nossas vidas, quando, independente do caminho que escolhermos, sentiremos as consequências. Hoje ou daqui a vinte anos. 


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O caminho jamais percorrido

O tempo não é linear. Kronos, afinal de contas, não tem tanto poder sobre nós, mortais, finitos, passageiros. Quando o passado insiste em voltar, incompreensível e desconfortável, há tão mais por trás disso do que a nostalgia. Quando as lembranças se revolvem umas sobre as outras como larvas, velhos traumas, e quando a inocência da juventude recordada deixa na boca um gosto de saudade... Ultimamente tenho me confrontado, não somente sobre o modo como tenho agido agora, mas também sobre as coisas que costumavam acontecer no passado. Acho que é uma nova forma de lidar com minha mania de melancolia. É um modo de juntar todos esses pedaços e encarar de uma forma menos agressiva. Sei que tudo isso está muito confuso agora, mas é muito mais simples do que parece.

É madrugada e ouço Enjoy the silence, de Depeche Mode, e tudo isso me parece tão familiar. O quarto fechado, a escuridão, a luz do monitor em minha face, hoje mais marcada. Essa fome, que se confunde com a noite lá fora. Coisas que nunca me deixaram, apesar do sentimento de perda. O jovem cheio de sonhos que não deu certo. O adolescente gay, esquisito, cheirando à gordura de lanchonete. O caipira ingênuo que descobriu a Literatura. Ao recordar a adolescência e o início da juventude, tenho a sensação de que alguma coisa ficou sem um devido final, como se eu ainda trouxesse um pedaço de um clímax disforme alojado entre o pulmão e o coração. E por que isso não seria verdade? Por que preciso decretar um final para o rapaz solitário e fantasioso? Por que devo sentir medo de quem fui e do que sentia? Do próprio medo?

Dia desses encontrei alguns textos de quando eu costumava blogar e alguns deles, muitos, na verdade, nem mesmo parecem ter sido escritos por mim. Mas me reconheci em cada palavra. Por algum tempo quis esquecer as coisas que eu sentia, ou que não sentia. Isso mudou, em parte, desde esse episódio em que reli os escritos. Imagino inclusive que é um processo que teve início até mesmo antes desse dia, quando abri meus baús e me li em voz alta para outra pessoa. Sim, havia outro alguém que ouviu minhas palavras e não me condenou... tanto. Eu costumava ser muito duro comigo e com os outros, mas acho que ainda não tenho tanto a dizer para o jovem Jefferson. Ou talvez tenha. E é por isso que repostarei alguns desses textos de anos atrás aqui nesse blog, um novo blog. E é possível que eu comente uma ou outra passagem.

sábado, 10 de novembro de 2018

Verde, vermelho e azul


Morar em uma cidade pequena é uma experiência muito solitária se você é uma pessoa LGBT. Se essa cidadezinha se situar no Mato Grosso, seja entre extensas plantações de soja ou no meio das altas árvores amazônicas, essa solidão pode ser tão vasta quanto a imensidão do verde que se estende pelo campo para se encontrar com o azul do céu em um lugar muito distante. E se por acaso a pessoa LGBT em questão for introspectiva ou tímida... bem, ela terá tido tempo e espaço o bastante para perceber as cores do deserto. O meu deserto é verde e vermelho, a cor da folha e a cor da poeira, mas meu coração é azul.

domingo, 4 de novembro de 2018

Eu chovo, tu choves, ele chove

Abro a janela. A claridade da tarde mergulha no quarto. Mas não é uma luz de dia ensolarado. Choveu pela manhã, ou depois de meio-dia, não sei ao certo, mas bonitas nuvens cinzentas ainda deslizam pelo céu. Sopra um vento fresco em Pedra Preta. As roseiras de minha mãe, plantadas em frente à casa, rentes à mureta azul e à grade verde, estão repletas de pingos de chuva que ali caíram e ficaram. Não tem chovido em Mato Grosso como geralmente chove nessa época. Talvez a estação das águas tenha de fato chegado. Talvez o verão tenha se encorajado a começar... É o fim do ano, mas o início de muitas outras coisas.
© Jefferson Reis
Maira Gall